segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

Ainda os apanho a fumar

Bom de ler que economistas mainstream começam a admitir que talvez a solução da crise passe por algo completamente diferente do crescimento continuo num planeta finito. Senão vejam o que diz o Krugman: "But what if the world we’ve been living in for the past five years is the new normal? What if depression-like conditions are on track to persist, not for another year or two, but for decades?"
Ainda os apanho a fumar... :)

http://www.nytimes.com/2013/11/18/opinion/krugman-a-permanent-slump.html?smid=fb-share

quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

Crise antropológica

"À crise que vivemos actualmente somam-se muitas outras e todas se misturam. Já não é apenas uma crise económica e financeira, mas uma crise ecológica, social, cultural ... isto é, uma crise de civilização. Alguns falam de crise antropológica ..."

Serge Latouche

terça-feira, 21 de Maio de 2013

Economia de totós


São cada vez mais frequentes as teses em meio académico (no estrangeiro), com análises no âmbito económico que já não se referem às crises do nosso tempo apenas como ciclos em que se esgotam modelos políticos, empresariais e sociais - à espera de que novas fórmulas sejam capazes de levar a novos ciclos de crescimento económico. As novas teses centram-se progressivamente na análise do que podemos caracterizar como uma caminhada rumo à exaustão dos limites físicos do planeta - o que implicaria a impossibilidade de continuar a tentar caminhos que exijam maior consumo de  recursos naturais, com o objectivo de assegurar o crescimento económico.

A economia não é uma ciência exacta, é parte das ciências sociais. A economia encerra uma ideologia/crença no crescimento infinito Tem vivido numa lógica fechada, como se fosse autónoma da ecologia planetária. A economia foi levada a um beco sem saída, ficou estéril, por não considerar devidamente os limites físicos da realidade. Nas condições actuais dos recursos, é impossível manter 7 biliões de pessoas com um padrão de vida semelhante ao dos países desenvolvidos.

quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Serge Latouche e a idea de decrescimento


A crise da civilização ocidental e a resposta do Decrescimento. Com Serge Latouche (legendado) from CIDAC on Vimeo.


entrevista retirada daqui

Serge Latouche, que esteve em Portugal há duas semanas a convite do Centro de Recursos para o Desenvolvimento para uma conferência na Gulbenkian, defende o abandono do objectivo do crescimento ilimitado, que traiu as suas promessas de emprego e abundância para todos. Em alternativa, propõe o decrescimento, um termo "provocatório" que se opõe à "religião" do "crescimento pelo crescimento". O objectivo é criar uma sociedade onde se viva melhor, trabalhando e consumindo menos. A crise pode ser uma oportunidade, mas Latouche receia que pouco mude. Quando um modelo falha, é preciso sobretudo nada mudar, ironiza.

O que está por detrás do conceito de decrescimento? 

O decrescimento é um slogan que fomos forçados a utilizar para romper com o "ramerrão" do discurso desenvolvimentista, que fala em crescimento, crescimento e que nos conduzirá a uma catástrofe. Claro que é uma palavra provocadora, polémica... e até blasfema, porque temos uma relação quase religiosa com o crescimento. Podemos mesmo falar de uma religião, um culto, do crescimento. Falar de decrescimento cria um efeito de estupefacção. Decrescer por decrescer seria absurdo. Mas crescer por crescer é absurdo e ninguém se dá conta disso, porque estamos envolvidos nessa religião.

Defende um abrandamento do crescimento?

O problema não é o crescimento. É a sociedade que não tem outro objectivo que não seja o crescimento pelo crescimento. Não se trata de crescer para se satisfazerem as necessidades, que é uma coisa excelente. O que temos é uma sociedade em que quando as necessidades estão satisfeitas é preciso criar outras para se continuar a crescer. Temos o nosso destino ligado a esta lógica e é daí que temos que sair.

Como é que se faz a transição?

É preciso fazer uma revolução. Antes de mais, fazer uma revolução mental e cultural - descolonizar o nosso imaginário -, que nos pode levar a uma mudança de comportamentos e a uma mudança das formas de produzir. É uma mudança radical.

E onde encontra aliados para essa mudança?

Por todo o lado. Há em todos os homens a consciência de que estamos a dirigir-nos para uma catástrofe e que é preciso mudar. Mesmo os dirigentes empresariais e o poder financeiro sabem isso, mas têm interesses de tal forma potentes dentro da lógica do sistema que não têm a coragem de romper com ele. Pelo contrário, há milhares de pessoas que são vítimas do sistema e que teriam todo o interesse em mudá-lo. 

Essas vítimas também parecem não querer sair do sistema.

Estes têm o seu imaginário colonizado pela publicidade, pelos media, pelos lóbis que financiam a publicidade e os media. No Antigo Regime, em França, havia uma elite esclarecida que provocou a revolução para instalar a República.

É uma revolução dessa ordem de grandeza a que defende?

Devemos imperativamente fazer essa revolução, se quisermos ter um futuro. Se não mudarmos o sistema, caminharemos para o desaparecimento da humanidade.

A crise económica e financeira que afecta o mundo ocidental é uma consequência do modelo do crescimento pelo crescimento?

É uma consequência da lógica desta sociedade de crescimento que, depois dos anos oitenta, não teve outro objectivo senão prolongar a ilusão do crescimento e entrou numa bolha financeira. Esta começou por ser uma crise financeira, mas é também uma crise económica e, acima de tudo, uma crise de civilização.

A saída da crise pode ser uma oportunidade para pôr em marcha o decrescimento?

É uma oportunidade. Saber se conseguiremos aproveitá-la é outra questão.

Quando ouvimos os líderes políticos na Europa, a lógica parece manter-se.

Exactamente. É por isso que o decrescimento deve ser feito contra os políticos, porque eles não querem compreender. Quando um modelo falha, é preciso sobretudo nada mudar.

Como é que se explica às pessoas que o decrescimento é melhor do que o crescimento? 

É fácil. Neste momento, há muita gente no desemprego, os jovens não têm futuro. Esta sociedade traiu as suas promessas: a abundância prometida não é a abundância. Mesmo que consumamos e destruamos enormemente os recursos do planeta, nunca estamos satisfeitos. A lógica do crescimento é criar a ideia de nunca estarmos totalmente na abundância, porque se estivéssemos parávamos de consumir. 

Mas se pararmos de consumir de forma repentina, haverá impactos significativos no emprego, por exemplo. É o que está a acontecer nos países que têm programas de austeridade como Portugal.

O consumo, de todas as formas, parou para muitas pessoas, por causa da austeridade. Mas é terrível, porque estamos sempre na lógica de uma sociedade do crescimento, mas sem crescimento. Não é a mesma coisa que uma sociedade de decrescimento que não está organizada para o crescimento. Está organizada para conviver bem, sem consumir demasiado, com base num consumo dentro das nossas necessidades e em que não é preciso trocar de máquina de lavar todos os dois anos, porque está sempre a avariar: temos uma que vai durar toda a vida. Não destruiremos a natureza, produziremos menos e teremos a mesma satisfação. Além disso, não teremos necessidade de trabalhar tanto para atingir o nível de satisfação que a publicidade vende. Porque para produzir os computadores que atiramos para o lixo ao fim de dois anos é preciso trabalhar, trabalhar, cada vez mais.

O decrescimento não está então no pólo oposto do bem-estar?

Pelo contrário. Trata-se de encontrar a felicidade perdida. Os inquéritos mostram que os portugueses, tal como os franceses, não se sentem felizes. Os economistas dizem: "Eles deviam ser felizes porque atingiram um nível de consumo elevado". Há aqui qualquer coisa que não está bem. A economia engana-nos. Promete-nos a felicidade, mas as pessoas não são felizes. É preciso, antes de mais, trabalhar menos. É estúpido trabalhar cada vez mais, para produzir cada vez mais, para desperdiçar cada vez mais. É preciso acabar com este massacre: produzir menos, porque não é necessário produzir cada vez mais, trabalhar menos e se trabalharmos menos as pessoas podem trabalhar todas e ter tempo livre. 

O decrescimento também tem aplicação nos países subdesenvolvidos?

O decrescimento é um slogan provocatório para as sociedades de crescimento ocidentais. Para as sociedades ditas subdesenvolvidas há diferenças. África precisa de aumentar a sua produção, não para produzir infinitamente, mas para satisfazer as suas necessidades. A ideia de uma sociedade de abundância frugal é válida para África, Ásia, América Latina e Europa, mas a forma de a alcançar não é a mesma porque o ponto de partida é diferente.

Retomo a questão: como se sai do nosso modelo de sociedade?

Estamos a sair da sociedade de consumo à força. A questão é: estamos a sair para irmos para onde? Vai-nos levar, numa primeira etapa, a um gigantesco caos. E desse caos pode sair o melhor - o projecto de uma sociedade de decrescimento, uma sociedade de abundância frugal - ou o pior - uma sociedade ecofascista, ecototalitária, que está, de certa forma, em marcha um pouco por todo o mundo. 

Sente-se um profeta?

De modo nenhum. Sou um homem normal. Fico sobretudo surpreendido que nem todos pensem como eu, porque me parece que tenho bom senso